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Foi em um domingo (27/08) ensolarado que aconteceu a nossa formação aberta sobre Interseccionalidade (gênero, raça e classe), com as parceiras Alessandra Almeida e Tatiana Nascimento, finalizando com um show da Tati com a Dani Vieira. Dia de muitas potências, presenças e partilhas políticas-afetivas que se mostram reverberação no cotidiano das práticas e das reflexões.

Entre o que foi e o que vem, seguimos com nossa agenda de manutenção do CDC Vento Leste, ensaios e construção do nosso Rolezinho, que logo-logo menos terá novidades...

 

Aproveitamos para acentuar a importância dos companheiros e companheiras somarem nessa sexta (22/09), no dia do julgamento dos jovens detidos no CCSP ano passado, quando se organizavam para irem juntos a um protesto contra o governo de Michel Temer (melhor explicado no texto de abertura do boletim). O ato será às 14h em frente ao Fórum da Barra Funda.

 

Seguimos juntos e resistindo!

O judiciário brasileiro está prestes a cometer uma injustiça que remonta aos tempos sombrios da ditadura. Um grupo de jovens que se organizou para irem juntos a um protesto contra o governo de Michel Temer ano passado está sendo acusado de constituir uma organização criminosa, que supostamente iria cometer atos terroristas neste ato. Trata-se de uma tentativa explícita de criminalizar este grupo, com todas as forças, numa clara ação de TERRORISMO DE ESTADO. Ou seja, intimidar as pessoas a não irem mais aos protestos.
Algo que de saída já coloca em cheque a acusação é o fato de que @s jovens se conheceram naquela semana, não eram um grupo organizado. Foi uma semana de vários atos contra o governo na sequência, praticamente diários, e as pessoas que vieram a formar este grupo se conheceram nestes atos, nestes dias, e estabeleceram contato por redes sociais, por meio de um evento no Facebook. Uma organização criminosa relâmpago? 
São acusados de terem a intenção de cometer um crime. Nem chegaram a ir ao ato, como podem ser incriminados por algo que nem fizeram? É o departamento de adivinhação de crimes (Precogs do Minority Report?) atuando novamente, como no caso d@s 23 militantes detidos no Rio na final da Copa.
No processo, são incriminados por estarem de preto e com moletom com capuz, e PORTANTO eram black blocs e tinham a intenção de cometer um crime. Para além da bizarrice que é esta correlação esdrúxula de associar cores de roupas com crimes e de tratar uma tática (black bloc) como se fosse um grupo, e para além do suposto livre direito à manifestação, vários deles nem estavam de preto. 
No processo consta que portavam uma barra de ferro, que foi forjada pela polícia em uma mochila e vinculada a um jovem que nem de mochila estava. Como também implantaram pedras, e tentaram colocar um pedaço de pau, mas se confundiram. E o que eles, de fato, tinham? Máscaras de pintura, máscaras cirúrgicas, materiais de primeiros socorros e vinagre, tudo para proteção contra a ação violenta da Polícia. Ao final do texto, há um relato detalhado do momento da detenção, e é assustador. 
Os únicos ouvidos nessa acusação foram os policiais, e seus depoimentos, como na maioria das vezes, têm força de prova. (in)Justamente eles, que forjam flagrantes a torto e a direito por aí. Somos o país do flagrante forjado, vide caso do Rafael Braga e tantos outros. Não dá mais pra ficar caindo nestes contos de fardas, já não temos mais cidade pra isso. 

Outra bizarrice, está incluído no grupo um jovem que nem ia ao ato. Estava próximo do grupo porque queria pegar o sinal de Wi-Fi para terminar seu TCC. Sua defesa, de que não tinha nada a ver com o grupo, não foi acatada. 
Fatos apurados depois da detenção (links ao final do texto) confirmam que havia um capitão do exército infiltrado neste grupo, e este capitão direcionou os jovens para o local onde foram detidos. O relato destes jovens revela que houve uma pressão interna dentro do grupo para que todos se encontrassem no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Um lugar relativamente distante da Paulista, onde era o ato. Depois, recuperando os fatos e registros, o grupo confirmou que quem insistiu para ir até o local foi o tal capitão do exército. Chegando lá, mal o grupo sentou pra conversar e apareceram muitos policiais. Havia 9 viaturas, um ônibus pra levar todo mundo preso e, pasmem, 1 helicóptero. Policiais “brotando do mato”, preparadíssimos para a ação. Os policiais dizem que foram os moradores do entorno que disseram que os jovens estavam no CCSP com atitude suspeita. Outro conto de fardas. Tudo isso foi uma ação articulada entre Exército Brasileiro e Polícia Militar de São Paulo. Este capitão, chamado William Pina Botelho (que adotava o nome falso de “Balta”), vinha mapeando e tentando se infiltrar em grupos de esquerda desde 2015, tentando aproximações sucessivas de muitas formas. Pelo Tinder, inclusive. 
Levados à delegacia, sem o capitão (foi levado pra outro lugar, supostamente porque estava sem documentos, o que deixou todos com a pulga atrás de orelha e foi uma pista fundamental para se descobrir sua real identidade), passaram a noite sob torturas psicológicas, materiais – muitas horas sem comer –, para no dia seguinte serem julgados. As menores de idade foram para a Fundação Casa, onde também sofreram inúmeras torturas psicológicas e ameaças à integridade física. Outro detalhe importante, não deixaram os jovens terem acesso aos advogados e familiares dentro da delegacia. Isso só foi possível 6 horas depois da detenção. Prática que era frequente nas prisões feitas durante a ditadura. 
Na audiência de custódia, o juiz, sensato, ponto fora da curva do Judiciário do país, considerou a detenção ilegal, e anulou o flagrante, engavetando o processo. No entanto, no final do ano o Ministério Público Estadual tirou o processo da gaveta e entrou com uma nova acusação, que foi acatada por uma Juíza. Depois das defesas prévias, que já aconteceram, @s jovens serão julgados nessa sexta-feira. Podem ser condenados a 9 anos de cadeia. 
Misteriosamente, o novo processo sequer menciona a existência do capitão do exército, e sua participação nesta história. É bastante grave a participação de um membro do exército em um processo de espionagem da sociedade civil, isso não pode passar batido como se nada tivesse acontecido. William, inclusive, é o verdadeiro articulador deste grupo, uma vez que incitou o encontro no CCSP, e o verdadeiro corruptor de menores, pois vinha já há um tempo assediando e tentando se relacionar com menores de idade, como mostram as notícias listadas abaixo. Uma delas, uma matéria feita pelo Luis Nassif, conta mais detalhes desta infiltração. 
Esse processo todo é uma afronta àquilo que costumávamos chamar de democracia. Estamos diante de 21 presos e presas políticas (18 maiores de idade e 3 menores). Outra vez. Colocá-los no rol dos culpados, além de uma injustiça sem tamanho, é também colocar mais uma pá de terra na cova da democracia. Uma nova etapa da expansão das ações de terrorismo de Estado para outros territórios além dos que enfrentam e resistem a isso há anos. Constituiu-se uma rede de solidariedade aos “18 do CCSP” (o processo judicial envolve apenas os maiores de idade), cuja página no facebook está nos links abaixo. Há também um registro em video de uma entrevista com pais de dois jovens do grupo e um manifesto em solidariedade ao grupo. 
No dia do julgamento, dia 22, às 14h, haverá um ato em frente ao Fórum da Barra Funda e é muito importante somar forças nesse dia, pra mostrar que não estamos calados diante de mais essa arbitrariedade. Não tenho dúvidas de que qualquer um de nós poderia ser um desses ou uma dessas que será julgado na sexta. E que poderemos ser, amanhã. O antigo e atualíssimo poema do Brecht serve como um alerta para este momento. : 
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
 

Lucas Bronzatto