CDC VENTO LESTE

A questão do espaço é sempre um dilema para grupos teatrais com poucos recursos e não é diferente com o Coletivo Dolores Boca Aberta. Optamos pela ocupação artístico-política de um terreno público outrora abandonado. Há 18 anos iniciamos a construção da nossa sede por meio de mutirões e diálogos, enfrentamentos e conquistas e parcerias. Nossa sede, o Clube da Comunidade Vento Leste, hoje, abriga 9 grupos organizados de diversas áreas e linguagens (Dolores, Cia Canina, Capoeira, Comunidade Paraguaios, Grupo de Basquetebol, Grupo de Futebol, La Pacata, Dança da Terceira Idade). São coletivos independentes lutando pela manutenção desse espaço, que já fora de abandono, com a efervescência sócio-cultural que poucos espaços na cidade conseguem.
 
Aos poucos o terreno se constitui em um Parque de Esculturas materializado por meio do que chamamos de Teatro Perene que é a construção de obras cênicas em simultaneidade com obras plásticas fixas no local. Hoje temos 9 esculturas a céu aberto construídas pelo Dolores em conjunto a grupos teatrais parceiros. Produzir arte perene surge como necessidade de beleza e necessidade de sobrevivência. Demarcar o espaço com arte significa um constante recado de presença poética no terreno que sofre toda sorte de assédios por parte de interesses econômicos e políticos.

O antigo CDM, Centro Desportivo Municipal, ao lado do posto de saúde e da escola José Bonifácio, já foi um terreno baldio e abandonado. Hoje  as coisas andam bem diferentes por lá. O Clube da Comunidade (CDC) Vento Leste é o nome de rebatismo do velho CDM, em homenagem ao grupo Cultural homônimo que na década de 70 também se reuniu nesse mesmo terreno aspirando arte, cultura,  poesia e comunidade.  

 

Há muitos anos moradores e grupos artísticos realizam um grande trabalho na ocupação e revitalização daquele espaço. O terreno é da prefeitura e desde a década 90 sofria com o abandono. 

 

Desde meados do ano 2000, um grupo de moradores da comunidade passou a cuidar do espaço e, desde então, a lutar por ele. O primeiro grupo a chegar foi o Coletivo Dolores promovendo uma ocupação artística, seguido pelo Esquadrão Capoeira, pelo Grupo de Dança  da Terceira Idade, Comunidade Paraguaia, Grupo de Basquete, Futebol, mais dois grupos de Teatro a Cia Canina e o Bando, além do ônibus cultural La Pacata. Durante todo o período de ocupação tantos outros grupos e coletivos também passaram e contribuíram para sua história e fortalecimento, foram eles o NA (Narcóticos Anonimos), as Cias de Teatro Parlendas, Mãe da Rua e Albertinas. 

 

Durante este período, após muita batalha e pressão na prefeitura, uma reforma foi conquistada dando ao espaço uma nova quadra poliesportiva, uma sala de ensaios e reuniões, uma reforma no galpão e a construção de banheiros. Acreditem, o lugar sequer tinha banheiros. Evidente que as lutas com o poder público corriam por um lado e, por outro, os esforços por organizar as atividades internas do CDC. Tudo voluntário, sem dinheiro ou qualquer infra-estrutura para continuar. Muita história, muita insistência, dificuldade e resistência:  invasão do espaço, roubos, pixações e depredações. Veja um vídeo de 2013 mostrando como era o espaço. 

O CDC Vento Leste agora é um espaço cultural público de resistência situado na zona leste de São Paulo, no Jardim Triana, próximo ao metrô Patriarca.

Quem chega ao portão de entrada do CDC se depara com um galpão grafitado. Na frente do galpão, área verde, um ônibus casa e uma cozinha caipira com fogão à lenha. Atrás do galpão um grande cata-vento colorido defronte a um morro de terra avermelhada. Do alto desse morro pode-se avistar parte da Vila Formosa, Cidade Líder, Cohab I, Jardim Nordeste, Ermelino Matarazzo, o falido primeiro shopping da zona leste, a Radial e outros tantos pontos da região e espaços mais distantes, como o adensamento de prédios do Carrão e Tatuapé.

Em certas noites, tira-se a prova do clarão alaranjado no céu: do morro vermelho os olhos tocam a chama expelida pela Nitroquímica de Santo André e as luzes vindas do Aricanduva. Nesse mirante os dias morrem em tons de outono; por lá se ganha o contraditório silêncio urbano, jovens fumam toda qualidade de aromas, poetas cantam o bairro, malucos, traficantes, trabalhadores circulam mais lentos.

 

Aos pés do morro, o CDC em panorâmica: duas salas de ensaio, quatro containers velhos, o teatro de arena com árvores, as quadras esportivas, o parquinho de madeira das crianças, o pessoal dos três grupos de teatro, da capoeira, da dança, do futebol, do basquete, do Narcóticos Anônimos e da Terceira Idade: polifonia da intensa atividade a mover este espaço que fora somente um terreno baldio.

 

O terreno abandonado ganhou shows musicais lotados, virou sede do Carnaval Contra-hegemônico, palco do espetáculo A Saga do Menino Diamante e da multidão que o assistia, abrigou mostras teatrais e videográficas, saraus e exposições fotográficas. E mais, virou dormitório de artistas vindos das mais diferentes regiões do Brasil, tornou-se parque de esculturas a céu aberto, ganhou poemas impressos em aço, espalhados entre árvores ao longo da pista de caminhada. E ainda, fez-se espaço onde também colocamos nossa alegria, festas, muitas festas, seminários, debates, estudos conjuntos, pesquisas teatrais, palestras, intensidade, movimento...

É do alto do morro vermelho que se toma distância da história frenética, dali se vê a cidade e mira-se o sonho. Por lá, novas viagens e planos de luta: subir no lugar mais alto: silêncio e trama.

PRIMEIRO PARQUE DE ESCULTURAS

Através do Projeto de Fomento do Coletivo Dolores, o CDC ganhou o Primeiro Parque Comunitário de Esculturas da cidade de São Paulo com ao todo 5 esculturas e 6 tótens-poesia. Tudo isso conquistado pelo povo organizado, teimoso e em luta. Uma grande vitória da Cidade Patriarca e região. 

 

Além de um espaço cultural comunitário auto-gerido, ou seja, um lugar onde os grupos comunitários é que são os organizadores das atividades e da manutenção do espaço, buscamos a efetivação desse Jardim de Esculturas além do aprimoramento da pista de caminhada, quadras esportivas, brinquedos e parquinho para as crianças. Sempre na busca de garantir que esse espaço continue possibilitando acesso ao lazer, esporte, cultura e arte. Tudo isso envolto por árvores e muito verde.

 

Atualmente, através de um projeto do Grupo Teatral Parlendas, o espaço ganhou uma horta comunitária, uma cisterna e um catavento gigante. 

ARENA ARBÓREA

É um espaço criado com árvores em semi círculo defronte ao barranco. A arena traz em si proposições estéticas e a propriedade de relacionar-se como arte e natureza, gerando possibilidades de movimento cultural fora dos eixos centrais e materiais proposto pela sociedade capitalista. Um teatro verdadeiramente livre, aberto e comunitário.

 

Foi plantada como forma de resistência artística no início da ocupação do CDC Vento Leste e atualmente já abrigou muitas formas de manifestação trabalhadora-artística: sarau, espetáculo teatral, festival de teatro mutirão, show e o que mais vier a brotar do morro vermelho. 

Algumas imagens dos últimos mutirões aqui.

ATIVIDADES DO CDC VENTO LESTE

O CDC é uma espécie de Centro Cultural Comunitário e Sede Artística de Grupos Comunitários. Lá acontecem ensaios de espetáculos e pesquisas teatrais, ensaios e shows musicais, aulas de capoeira e apresentações, encontro de grupo de recuperação NA (Narcóticos Anônimos), aulas de música e teatro, aulas de condicionamento físico e defesa pessoal, aulas de dança, mostras e festivais de teatro. Aliás, as peças teatrais dos grupos do CDC já foram premiadas e reconhecidas nacionalmente, é o caso dos espetáculos Marruá, do Grupo Parlendas (prêmio CPT e Miriam Muniz), e da A Saga do Menino Diamante, do Coletivo Dolores (Prêmio Shell e CPT).

 

No CDC também acontecem atividades esportivas desenvolvidas pela comunidade: Torneios de Futebol e Street Ball (basquete).

COLETIVOS DO CDC VENTO LESTE

CIA CANINA DE TEATRO DE RUA E SEM DONO

A Cia Canina de Teatro de Rua e Sem Dono é uma "cãopanhia" mambembe de artistas de rua que fazem parte da ocupação CDC Vento Leste da Zona Leste de São Paulo. A Canina é composta por 4 cães indomesticáveis: Cachorrão (Igor Giangrossi), Cachorrera (João Victor), Catiora Abracadela (Laura Alves) e nossa diretora: Marília Perra (Tamy Dias).

Palhaços? Atores? Músicos? Circenses?
A matilha se formou em 2016 unindo artistas que tinham em comum o trabalho com a comicidade, cultura popular e teatro de resistência, ocupando praças, ruas e espaços de luta.

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LA PACATA

La Pacata é um ônibus adaptado, estacionado em um espaço cultural dedicado a atividades artísticas e encontros entre amigos.

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COMUNIDADE BOLIVIANA

A Cidade Patriarca e região possui uma grande comunidade boliviana. Muitos destes moradores encontram nas dependências do CDC um local para lazer e esporte. Organizam-se em times de futebol e promovem torneios com até 20 equipes.

BANDO TEATRAL ARREUNI

Em dois anos de história, o Bando Teatral Arreuni é um coletivo artístico que reúne uma pesquisa sobre o teatro de rua, o teatro de grupo, a comicidade, o teatro épico e da contra imagem.  Os integrantes do grupo fazem parte da ocupação no CDC Vento Leste, há 6 anos, participando na autogestão do espaço, cuidando da horta comunitária (da qual fomos idealizadores) e seguimos com o trabalho de teatro e música. Fazemos apresentações na rua, temos uma Banda-Bando que mistura o repertório da peça “Quase [falta peça]” com músicas da cultura popular e MPB.

Não negamos a história, o Bando surgiu de uma dissidência com o Grupo Teatral Parlendas: um novo velho grupo. Nascemos da divergência estética e de método que ocorreu durante a realização do projeto “Cidade Em.Contra.Fluxo”, contemplado pela 26° Edição da Lei de Fomento da cidade de São Paulo (2015-2016). Porém alguns de nossos integrantes seguem juntos desde 2014.

Atualmente o Bando Teatral Arreuni se reúne semanalmente no CDC Vento Leste para ensaios, mutirões da horta, reuniões de autogestão e promoção de atividades gratuitas.

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STREET BALL

Cerca de 30 amantes do basquete juntam-se nas manhãs de domingo na quadra do CDC. Jogam street ball, modalidade de basquete de rua onde trios se enfrentam. São moradores da região com idades entre 20 e 40 anos. As partidas são abertas a novos desafiantes.

NA CIA DA CABRA ORELANA

Na Cia da Cabra Orelana é uma companhia de teatro formada só por mulheres que se juntaram por afinidades artísticas e de luta, apesar de serem tão distintas e de trajetórias diversas dentro do teatro paulistano. Juntas estão produzindo e montando o espetáculo "a farsa do açúcar queimado ou a mulher que virou pudim", texto e direção da cabra Ana Souto, a responsável pelo projeto agregador. E esse bando segue sem financiamento público ou privado, em busca de derrubar cercas e o patriarcado.

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GRUPO ESQUADRÃO ARTE CAPOEIRA

Há 14 anos o Grupo Esquadrão Arte Capoeira integra o CDC Vento Leste e contribui na gestão coletiva e comunitária do espaço. Com cerca de 50 participantes configura-se como uma referência da capoeira na região. Batizados, encontros e festas são realizados pelo grupo nas dependências do CDC. As aulas são gratuitas e abertas à comunidade.

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COMUNIDADE PARAGUAIA

Também residem muitos imigrantes paraguaios em nossa região. A comunidade paraguaia organiza campeonatos de futebol e atividades de lazer no CDC Vento Leste. Na festa junina do CDC os paraguaios criaram sua barraca com deliciosas comidas típicas.

VÍDEO //

"CDC VENTO LESTE"

Para conhecer melhor o espaço, os coletivos gestores e suas atividades, acesse o perfil do CDC Vento Leste no Facebook.

 

CDC VENTO LESTE

Rua Frederico Brotero, 60 - Jardim Triana (Próximo ao Metrô Patriarca)