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HISTÓRICO

DOLORES BOCA ABERTA

O grupo teatral Dolores Boca Aberta nasce em 2000, sob o signo do diálogo com os espaços que ocupa.

 

Desde então, apresenta seus espetáculos em lugares bastante díspares entre si: teatros municipais com palco italiano; CEUS (Centro Educacional Unificado da prefeitura de São Paulo); pátios internos ao ar livre, como na temporada no Sesc Pinheiros em outubro de 2005; em via pública, como no evento Virada Cultural promovido pela prefeitura de São Paulo em novembro de 2005; no café Aricanduva, do Sesc Itaquera; em salas de aula em uma escola municipal; no salão de um prédio ocupado por integrantes de um Movimento de Trabalhadores Sem Teto, no centro de São Paulo; em assentamentos rurais; em manifestações de rua; entre outros.

 

Com sede no bairro Jardim Triana da periferia da zona leste de São Paulo, o Coletivo Dolores inicia sua atuação em 2000 com a ocupação artística das dependências de uma escola municipal da região, com oficinas de teatro para adolescentes, estreiando  sua primeira montagem em 2001, “Bonecos chineses”.

 

A peça, de Caio Fernando Abreu, é montada em um espaço não convencional: a sala de aula. Carteiras escolares compõem cenários, como uma casa, uma árvore. A proximidade e o nivelamento espacial entre público e elenco já cria uma relação mais intensa na vivência artística. A escola vira teatro durante as noites do fim de semana. O bairro dormitório teve então uma peça em cartaz durante 5 meses, em uma região que não dispõe de equipamentos culturais num raio de muitos quilômetros. A montagem também foi realizada em outros espaços não-convencionais, a convite das ONGs Ação Educativa e Instituto Paulo Freire.

O diálogo com o espaço ocupado não se restringe aos espetáculos montados. O Dolores também promove, na região de sua sede, eventos periódicos como o Pilhéria no Macedo (teatro, música e brincadeiras de rua para crianças), Saraus com artistas de toda a cidade, e os debates Comunidade Boca Aberta.

 

Também se iniciam nesta época os mutirões para a construção de um teatro de arena ao ar livre – a Arena Arbórea, no terreno de um CDM (Centro Desportivo Municipal) abandonado, na região.

 

O grupo recebe novos integrantes em 2002 – atores, contadores de histórias, músicos – criando dois novos núcleos de pesquisa para estes dois últimos. Com estes dois pólos e também com o teatral, o Dolores desenvolve atividades no Sesc Itaquera: contação de histórias, oficinas para educadores, debate e entrevista sobre as atividades artísticas e comunitárias do grupo para a rádio interna da unidade (Todos os Sons).

 

A segunda montagem do grupo, “Casa de Dolores” (2003), é inspirada nos saraus realizados pelo grupo, na arte dos contadores de história e incorpora os músicos ao elenco – músicos em cena e atores que cantam e tocam instrumentos, prática que se incorpora à montagem de “Sombras Dançam Neste Incêndio”.

“Casa de Dolores” tem uma estrutura fragmentada, composta por poemas, pequenas histórias e canções. Com estas músicas o grupo volta ao Sesc Itaquera para um pocket show no Café Aricanduva e participa de outra gravação de programa para a rádio interna da unidade. O espetáculo também é levado para temporada no Sesc Pinheiros e para o outono teatral do Sesc Santo André.
 

Paralelamente, a ocupação de espaços públicos e a publicização de espaços privados na região da sede do grupo continua. A sede do grupo é transformada temporariamente em espaço cultural aberto ao público, recebendo atrações musicais e teatrais durante o segundo semestre de 2004. Desde o final de 2002 o grupo também ocupa um galpão do já citado CDC (Clube da Comunidade - antigo CDM - Centro Desportivo Municipal) abandonado, cuja gestão está sob controle de uma diretoria comunitária composta por artistas do Dolores.

 

No CDC são realizadas aulas de futebol para crianças com o preparador físico do grupo, o Cine Barranco (projeção de filmes ao ar livre) e o evento Trama do Morro Vermelho (mutirão de grafite e apresentações musicais), além dos ensaios do Dolores.

 

Neste galpão também aconteceram os primeiros ensaios, montagem e apresentações do “Sombras Dançam Neste Incêndio”. Este espetáculo foi apresentado fora do espaço-sede, visitando comunidades em assentamentos e acampamentos rurais do MST, na favela Real Parque, e também na escola Nacional Florestan Fernandes do MST.

 

O terreno do CDC Patriarca abriga há muitos anos parte da profusão cultural da zona leste de São Paulo. Em 2009, “A Ópera Periférica” surge como resultado de estudos e práticas que foram exaustivamente pesquisados durante os anos de 2007 e 2008 dando corpo ao espetáculo.

 

O processo de criação e montagem da “A Saga do Menino Diamante” foi um grande desafio para o Coletivo Dolores Boca Aberta: trabalhar com uma equipe de 28 pessoas, conciliando em uma criação coletiva atores e músicos com diferentes graus de experiência. O pontapé inicial desse processo criativo foi dado pela criação do primeiro personagem de nossa Ópera Periférica: o político Armando Boas Praça. Durante os meses que antecederam as eleições para prefeito e vereador de 2008, saímos às ruas realizando a campanha eleitoral de seu partido (Partido Oportunista Brasileiro - POB), alertando o povo para as práticas oportunistas de políticos aproveitadores de uma maneira bem-humorada e caricata. Em pouco tempo o nome de Armando Boas Praça já tinha caído na boca do povo. Este personagem também inaugurou para nós uma nova forma de pensar o teatro. O nosso fazer teatral, arte por essência efêmera, ganhou contornos de arte perene (daí o termo galgado por nós - Teatro Perene) ao fixar um busto do político Armando Boas Praça numa praça capinada, plantada, reformada e pintada pelo coletivo. Vai-se o teatro e fica a transformação do espaço gerado pelo acontecimento artístico.

“A Saga do Menino Diamante”, tendo bebido desta fonte, buscou ser um instrumento de diálogo dirigido à classe trabalhadora para suscitar a reflexão e o debate a respeito do sistema de dominação que nos tem sido imposto historicamente. Apesar de abordar temas complexos, mostrou-se um sucesso de público, com plateias cada vez mais cheias em espetáculos gratuitos, chegando a reunir cerca de 300 pessoas em sua última apresentação em dezembro de 2009 e superando todas as expectativas possíveis para um espaço não-convencional no contra fluxo do teatro tradicional da cidade. Na última apresentação da temporada de 2010, cerca de 600 pessoas comparecem ao espaço. O espetáculo que tratava de relações estabelecidas ao nascer e que historicamente nos transformam em seres sociais em intenso e frequente movimento, recebe importantes premiações e indicações a prêmios  (Shell – Prêmio Especial e CPT 2010 – Trabalho apresentado em espaço não-convencional e Ocupação de espaço).

 

Na comemoração dos 10 anos de sua trajetória, o grupo realiza um grande sarau – marca registrada dos eventos praticados pelo coletivo – com a presença de grupos parceiros, fruto das relações conquistadas no decorrer do tempo e no alinhamento das pesquisas e produções teatrais. O público pode presenciar uma atividade carregada de grandes emoções, com integrantes de várias formações do grupo e outras faces demonstradas dentro das diversas apresentações. 

 

Parte do processo da “A Saga do Menino Diamante”, um potencial segundo ato do espetáculo, se destaca tornando-se uma obra teatral autônoma. Trata-se dos anseios de um homem chamado Antônio, mas que poderia ter qualquer nome, pois caracteriza uma classe média que tem passado por inúmeras insônias e doenças da atualidade, devido a vida “enquadrada” em que está imersa. “Insônias de Antonio”, participou das mostras Nós da Periferia (Engenho Teatral), Militância Teatral na Periferia, Mostra de Teatro Monte Azul, Circuito TUSP, todas nos anos de 2010 e 2011.

Estes anos também foram marcados pela criação de núcleos de pesquisa teatral debruçando o olhar sobre o tempo livre do trabalhador (ou a falta de) - Poesia, Erotismo e Periferia, Direito à Preguiça e Narrativas na Cozinha. Com funcionamento independente entre si, os núcleos abordam três faces diferentes do tema, e almejam a realização de performances e espetáculos que possam ser apresentados de modo conjunto ou separado sobre o “guarda-chuva” de “Trilogia da Necessidade”.

 

Fechamos o ano de 2011 com uma temporada de um mês da “A Saga do Menino Diamante”, na qual a afluência de público mais uma vez nos surpreendeu, com uma média de público de 300 pessoas para o espetáculo-festa.

 

No ano de 2012, dedicamo-nos à continuidade da pesquisa com os núcleos de pesquisa, mas as principais ações continuam abarcando todo o coletivo. A preparação do Festival Teatro Mutirão, em uma praça ao lado do metrô Artur Alvim, foi especialmente complexa, porque envolvia a criação e execução de um monumento de 5 metros de altura - mais um experimento de Teatro Perene -, e a realização sincrônica de um festival teatral, no qual se apresentaram Mamulengo da Folia, Coletivo Alma, Trupe Olho da Rua, Cia. Kiwi, Jongo de Guaianases, Nhocuné Soul, Cia. Antropofágica, além de uma roda de discussão sobre a intervenção com o professor Alexandre Mate, a Sexta Socialista, uma roda de samba.

O direito à preguiça

O planejamento envolveu o coletivo desde a escolha da forma da escultura à dinâmica da ocupação da praça, onde residimos durante 15 dias para o trabalho, sendo preciso criar uma estrutura para dormir, cozinhar, ir ao banheiro, tomar banho, sediar apresentações teatrais, musicais e debates. Por esta ação o Dolores ganhou o CPT Prêmio Especial 2012 - Ocupação Cultural e Festival Teatro Mutirão.

 

Ainda no mesmo ano, realizamos estudos de agit-prop em parceria com as Cias. Ocamorana, Brava, Estável e Antropofágica. Nossa participação se deu na pesquisa das formas Opereta, Peça Curta de Agitação e Teatro-Jornal. Pudemos pesquisar e reelaborar estas formas históricas, estudar o processo de mobilização dos trabalhadores brasileiros desde o final da Ditadura Militar até o atual amadurecimento da democracia no país. Para fechar o ano, mais uma temporada da “A Saga do Menino Diamante” e de “Insônias de Antonio”.

 

Nos anos de 2013 e 2014, o Coletivo conquista mais uma edição do Projeto de Fomento ao Teatro com o “Trama do Morro Vermelho”. Dentre as ações envolvidas, muito mutirão e transformação no espaço do CDC Vento Leste. Uma cozinha-cenário com fogão a lenha e telhado verde, um novo container grafitado e modificado por oficina de serralheria e a revitalização de nossa arena arbórea. A batucada do Dolores se aprimorou e se somou à muitas lutas e ações culturais pela cidade, entre elas o Cordão da Mentira, a 1ª Feira Paulista Antropofágica de Opinião, o carnaval do Coro de Carcarás da Faculdade de Arquitetura da USP, o carnaval da “Unidos da Lona Preta”, escola de samba do MST, o evento “Estéticas de Periferia”, a virada cultural do Sesc Pompéia, a abertura da VIII Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas, entre outros. A circulação e o chamado recorrente colabora na consolidação do carnaval cênico tocado pelo bloco “Unidos da Madrugada”, do Coletivo Dolores, nas ruas do bairro. 

Além do carnaval teatral e da percussão, se desenvolve amplamente o trabalho dos núcleos de pesquisa teatral do Dolores (Direito à preguiça, Narrativas na cozinha e Poesia, erotismo e periferia) culminando na Mostra de Processo “Trilogia da Necessidade” partilhando os ensaios abertos dos seus futuros espetáculos. 

 

Realizamos também o II Festival de Teatro Mutirão contando com a presença de importantes grupos teatrais da cidade que apresentaram seus espetáculos e experimentos cênicos e perenizaram sua presença no espaço com esculturas produzidas em colaboração com o Dolores. 

 

Reconhecendo o trabalho de ocupação cultural, o CDC Vento Leste ganhou o Prêmio CPT 2013 na categoria “Ocupação de espaço”. 

No ano de 2014, a partir das pesquisas carnavalescas, o coletivo estreiou e circulou o “Rolezinho Político Carnavalesco”, um espetáculo de rua satírico que parte do duelo entre o Capetalismo e a Santa Preguiça, em suas disputas no mundo do trabalho e do consumo, para chegar com a força da batucada do Dolores nas protegidas portas do palácio do Rei Momo Governador, instaurando um impasse na luta entre a força institucionalizada e a organização popular. 

 

Em 2015, o grupo é contemplado pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro

com o Projeto “Dolores 15 anos - Trilogia da Necessidade” em comemoração ao aniversário de 15 anos de história e realiza uma série de ações impactantes.

 

Após 4 anos de pesquisa, o coletivo realiza temporada dos três atos teatrais da sua Trilogia da Necessidade. Cada um comportando sua autonomia cênica, de linguagem e tema, compõe em conjunto uma unidade de reflexão estética – as necessidades básicas dos sujeitos, como o sexo (“P.U.T.O. - um ato poético”), o descanso (“O direito à preguiça”) e a alimentação (“Narrativas na cozinha”), e como se dá essa relação necessidade X possibilidade na dinâmica da nossa sociedade orientada para a produção de serviços-mercadoria e produtos-mercadoria padronizados, anônimos e abstratos. Assim, permeados pela alienação do mundo do trabalho, a Trilogia da Necessidade aborda esses diferentes eixos temáticos sob a perspectiva das contradições que envolvem nossas necessidades e o meio pelo qual se dá suas realizações.

A primeira estreia da Trilogia é o espetáculo "P.U.T.O. (um ato poético)" em julho de 2015. O ato poético segue o viés da pesquisa sobre Poesia, Erotismo e Periferia, traçando um paralelo entre o mundo do trabalho formal e a prostituição, sobre a venda dos corpos e mentes, a alienação das relações e as tentativas de se livrar da morte em vida. No mês de setembro realizamos o III Festival de Teatro Mutirão com a participação de seis saraus da cidade e a inauguração de 6 tótens-poesia no espaço do CDC Vento Leste.

 

Em novembro, aconteceu a estreia do segundo espetáculo "O direito à preguiça". A peça faz um giro, em espiral, pelos discursos ideológicos ao longo da história, por meio de caricaturas que possibilitam a reflexão crítica sobre o mundo do trabalho e apontam a preguiça como resistência à alienação da atividade humana criadora. O espetáculo fez temporada de um mês no CDC tendo se apresentando também em duas escolas ocupadas pelos estudantes devido a reorganização escolar proposta pelo governo Alckmin. 

No ano de 2016, ainda no projeto de 15 anos, Dolores sai às ruas com o carnaval da “Unidos da Madrugada” com o samba feminista “Sou de luta, sou mulher”. Além das formações teóricas e práticas, nas quais se manifesta nossa busca permanente por aprofundamento e compreensão do momento histórico atual, tivemos uma importante ação de comemoração das nossas 15 primaveras poéticas: o lançamento do livro "Dolorianas". O livro concentra parte significativa da produção artística do Dolores. São poesias, contos, crônicas, letras de música, experimentos literários de todos os tipos e de todos os integrantes atuais e também dos que já passaram pelo grupo.

 

Para encerrar o projeto, em junho de 2016, acontece a última estreia da Trilogia da Necessidade o espetáculo "Narrativas na cozinha"

Em 2017, depois de muita articulação e luta, a primeira edição da Lei de Fomento à Cultura da Periferia acontece e o Coletivo Dolores é contemplado com o projeto “Trama do Morro Vermelho”. O projeto tem como foco principal o retorno à pesquisa para a encenação do “Rolezinho”, além de ações de formação teórica e de manutenção da sede do Coletivo. 

Com o “Trama do Morro Vermelho”, o coletivo se coloca no mundo circulando com seu “Rolezinho” pela cidade, pelos espaços de grupos parceiros. O espetáculo marca a volta do Dolores às experimentações com grandes elencos e apresenta um monstro com olhos de fogo que suga toda água da floresta e concede goles d’água aos animais em troca de seus olhos. A fábula carnavalizada pelo coletivo opera a metáfora do monopólio das riquezas e da cegueira social como características inseparáveis de um monstro, o Boitatá. Diferente das lendas brasileiras, em que o Boitatá surge como defensor de florestas, nesta aparição ele será a representação de uma relação social hegemônica, que domina tudo e todos.

 

Em 2018, o coletivo tem mais um projeto contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo, em sua 32ª edição. O projeto "Outra vez TRABALHO" tem duração de 10 meses e 5 principais ações: a circulação do “Rolezinho” por praças, espaços culturais e escolas públicas da cidade, o trabalho em 5 novas frentes de pesquisa, o permanente aperfeiçoamento teórico do coletivo e comunidade, as reformas e revitalização do CDC Vento Leste e a ciranda. Conheça o projeto na íntegra, clicando aqui

TRABALHOS ACADÊMICOS

O teatro político de rua praticado pelos coletivos ALMA e Dolores: Estéticas de combate e semeadura

Alexandre Falcão de Araújo

Dissertação de mestrado

Unesp, 2013

 

Pólen, Pólis, Política: encen[ações] de um coletivo de trabalhadores-artistas

Gustavo Idelbrando Curado

Dissertação de mestrado

USP, 2012

 

A formação dos sujeitos periféricos: cultura e política na periferia de São Paulo

Tiarajú Pablo D'Andrea

Dissertação de doutorado

USP, 2013

 

A defesa do óbvio - um relato da luta pela sobrevivência do teatro paulistano

Bruno Laforé e Laura Sarkovas

Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo

PUC-SP, 2014

 

O TEATRO COMO AÇÃO SOCIAL: Manifestações do teatro na cidade de São Paulo

Nanci Brandão de Lima

Trabalho de Conclusão do Curso de pós-graduação em Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos

USP, 2014

 

Espacialidade e ativismo social na zona leste de São Paulo: o caso do Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes

Gabriela Bortolozzo

Dissertação de mestrado 

Unesp, 2014