Qual a necessidade de um dia para celebrar o orgulho? Logo com esta palavra, orgulho, que é tão controversa. Na nossa sociedade este sentimento é tido como mau na cultura judaico-cristã, porém também é considerado uma forma humana de celebrar a sensação frente às conquistas e capacidades. Nossa conquista no dia do orgulho LGBTI+ é estarmos vivas e nossa capacidade celebrada é a de sobreviver. Entretanto a pergunta que fica é: estamos sobrevivendo? Estaremos fadadas a apenas sobreviver?

 

Este orgulho é teimoso, porque sem ele não seria possível para tantas e tantos de nós levantarmos da cama, e cama é pra quem tem. O Estado e suas leis não nos contemplam e nos criminalizam, é crime ser LGBTI+ em 72 países do mundo, 13 deles preveem pena de morte para nós. Vivemos no país que mais consome pornografia com pessoas transexuais e também o que mais comete assassinatos contra tais pessoas. A expectativa de vida das travestis foi corrigida para assustadores 27 anos de vida, somente em decorrência das mortes que se deram neste semestre. Foram 185 assassinatos em 2017 e somente neste ano já morreram 76, lembrando que são assassinatos e em sua maioria violentos e impunes. Uma outra pergunta me vem à cabeça: nossa solidariedade de classe vai até onde? Que condições nos colocam enfileirados como classe? O trabalho? Mas e quando não se consegue trabalhar? 

 

Este orgulho tem que se prostituir, já que falamos de trabalho. Segundo dados da Rede Trans 82% das mulheres transexuais e travestis abandonam o ensino médio pelas dificuldades impostas pelo ambiente, 90% delas está em situação de prostituição. O debate não é sobre prostituição, é sobre a privação do trabalho. Este orgulho celebrou neste mês o fato de que o CID 10 F.64 foi retirado das páginas do Cadastro Internacional de Doenças, que considerava como “disforia de gênero” a condição transexual. Porém, insistindo em perguntas, será que ao retirar das páginas isso some da prática médica? Será que anos de inculcação não afetaram a forma com que a sociedade enxerga esta população, acreditando ser uma doença ou um vetor de infecções sexualmente transmissíveis? Representatividade importa? 

 

Quem aprendeu essa cartilha direitinho foi a direita empresarial, o “pink money” já é o alvo de muitas campanhas publicitárias há anos e já se provou super lucrativo. Seu primeiro movimento entende que muitos dos homossexuais masculinos ascenderam em sua possibilidade de consumo, principalmente pela ausência de dependentes e núcleo familiar reduzido, e faturaram bilhões abrindo suas empresas e publicidade para esta população. Este mesmo setor se move agora na contratação e treinamento das travestis e transexuais, entregando uma visão empreendedora e perigosa a quem foi privado de tudo. Não espanta que muitos LGBTI hoje tenham uma visão de mundo muito empreendedora e apartada da luta de classes, aqueles que desenvolvem uma consciência muitas vezes não encontram nichos seguros onde possam aprender, ensinar e lutar. Nossa história como esquerda é desastrosa com esta população e tenho dúvidas sobre como promover alguma reparação histórica frente às perguntas que tenho que responder sobre fuzilamentos, sidários, trabalho rural forçado e copa do mundo sem gays na Rússia.


O orgulho que nos traz aqui hoje tem um bordão: “Pay it no mind”. Esta é a frase
associada a Marsha P. Johnson, liderança da S.T.A.R. (Ação Travesti Revolucionária de Rua), quando perguntada o que significava o P. em seu nome. Em inglês pode-se traduzir como “Pague e não se importe”, uma alusão irônica ao trabalho que a STAR realizava na rua de retirar as travestis do contexto de prostituição compulsória e promover a luta por direitos desta população. Marsha também esteve à frente do evento que é conhecido como Revolta de Stonewall, onde um bar da comunidade LGBTI+ em 28 de junho de 1969 inicia uma revolta popular contra as agressões da polícia novaiorquina e a falta de direitos da população que era criminalizada por existir. Vale lembrar que a criminalização da “sodomia” foi lei no Texas até 27 de junho de 2003. Esta revolta é conhecida como a gênese das lutas LGBTI+ e das organizações sociais frente ao tema. Em sua maioria para encontrar um espaço de segurança e acolhimento para então poderem lutar pelos direitos e contra a matança de seus iguais. Dentro da minha cabeça curiosa, vem as perguntas: devemos julgar esses movimentos pela compreensão da luta de classes e do contexto histórico sendo que a atual preocupação de tantas é em não morrer? Levando em consideração a criminalização da existência e a dificuldade para reunir seus iguais e debater suas especificidades, será que o tempo não é um fator determinante para a  consolidação de um raciocínio de classe e solidário? Nós temos esse tempo?

Este orgulho também é esperança. Nós estamos brotando nos terrenos mais áridos
e espalhando esse colorido da bandeira em todos os espaços. Munidos de afeto, nosso batalhão também quer engrossar as fileiras na luta de classes e construir as respostas pras novas dúvidas relacionadas ao horizonte revolucionário.

Igor Giangrossi

Esse boletim comemora também o Projeto "Outra vez TRABALHO" contemplado pela Lei Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. Muitos aprimoramentos pro nosso espaço, novas criações, cursos, etc. 

Por hora seguimos com os ensaios do espetáculo "Narrativas na Cozinha" e do "Rolezinho" para reestreia em julho e agosto de 2018.

Também divulgaremos em breve nossa segunda Troca Artístico Gastronômica de nosso ProaC "Semeando Resistências".

Fiquem atentos!

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